joão tegoni
6 de maio de 2026
Archicad ou Revit? Um comparativo honesto e a nossa escolha #49
introdução
A discussão volta com regularidade, em escritórios, em escolas, em fóruns. Qual BIM ensinar? Qual BIM adotar? Qual BIM domina o mercado? A resposta curta é que ninguém domina sozinho, e a escolha depende de variáveis que raramente entram na conversa: tipo de projeto, tamanho da equipe, sistema operacional, orçamento, e, o que costuma ser o ponto mais importante e menos discutido, qual cultura de produção o escritório quer construir. Este artigo tem duas partes, um comparativo técnico e a história da escolha do Estúdio Módulo. Em uma próxima edição, escrita em parceria com a Erica Tomasoni, BIM manager e sócia do Estúdio Módulo, entraremos nos fluxos de trabalho e soluções concretas que aparecem no dia a dia.
a versão curta
parte 1, o que cada software faz melhor
os números
quanto custa
Ambos operam exclusivamente por assinatura. No Brasil, a assinatura anual do Revit custa R$ 10.735 por ano por usuário (R$ 895/mês no plano anual). Existe também a opção mensal, a R$ 1.350/mês, proporcionalmente mais cara. Mas a maioria dos escritórios que usa Revit não contrata o Revit sozinho: a Autodesk oferece a AEC Collection (Arquitetura, Engenharia e Construção), um pacote que inclui Revit, AutoCAD, Forma e outras ferramentas do ecossistema, por R$ 13.125/ano (R$ 1.094/mês no plano anual). Para quem já precisa de AutoCAD no dia a dia, e muitos escritórios ainda precisam, a Collection costuma fazer mais sentido do que contratar o Revit avulso, porque o AutoCAD sozinho já custa R$ 7.480/ano.
O Archicad também opera por assinatura. A versão Archicad Studio (projeto arquitetônico com colaboração local) começa em R$ 8.205/ano por usuário no plano anual (R$684/mês). A versão Archicad Collaborate, que adiciona recursos de colaboração em nuvem, parte de R$ 9.652/ano (R$ 804/mês).
Na comparação isolada entre Revit e Archicad Studio, o Archicad sai cerca de 24% mais barato no plano anual. Mas a conta real nem sempre é essa. O Archicad não substitui o AutoCAD para quem ainda precisa de CAD 2D puro (detalhamentos legados, interlocução com prefeituras, compatibilização com escritórios parceiros que trabalham em DWG). Quem escolhe Archicad e ainda precisa de AutoCAD acaba pagando duas assinaturas em ecossistemas separados: Archicad Studio (R$ 8.205) + AutoCAD (R$ 7.480) = R$ 15.685/ano, mais caro que a AEC Collection da Autodesk (R$ 13.125), que já entrega tudo em um pacote. Para escritórios que conseguem operar sem AutoCAD, o Archicad continua sendo a opção mais econômica. A decisão depende de quanto o CAD 2D ainda pesa na rotina e qual software você pretende usar.
Ambos oferecem versões educacionais gratuitas e programas com condições especiais para recém-formados, que mudam com frequência e vale consultar diretamente nos sites de cada fabricante.
Os valores acima foram consultados em maio de 2026 nos sites oficiais da Autodesk e da Graphisoft para o mercado brasileiro e podem variar. Impostos não estão incluídos em nenhum dos valores.
hardware, performance e plataforma
imagem de uma estação de trabalho no estúdio módulo
modelagem
Biblioteca de famílias paramétricas de portas no Revit. Fonte: IntegratedBIM (integratedbim.com).
saída gráfica
Tanto o Revit quanto o Archicad geram plantas a partir do modelo 3D, cortado por um plano horizontal imaginário. A diferença está no quanto cada software permite que você controle o resultado visual desse corte.
O Revit projeta na planta exatamente o que o corte horizontal captura do modelo 3D. O que aparece no desenho é resultado direto do que existe no modelo. Isso significa que a atualização entre modelo e planta é automática e imediata, o que funciona muito bem em projetos com mezaninos, elementos suspensos ou geometrias complexas em altura, porque o que se vê na planta corresponde fielmente ao que existe no 3D. O custo é que o software precisa processar a geometria tridimensional para gerar cada vista, o que contribui para o peso dos arquivos.
No Archicad, o corte horizontal também gera a planta a partir do modelo 3D, e a planta atualiza quando o modelo muda. Mas o software permite camadas adicionais de controle sobre como os elementos aparecem no desenho: os componentes personalizados podem ter representações diferentes conforme a escala do desenho. Por exemplo, o símbolo de uma porta pode aparecer simplificado em uma planta geral (1:200) e detalhado em uma planta de execução (1:25), independentemente do que a projeção 3D mostraria. Isso dá mais liberdade sobre o documento gráfico final. O risco é que esses ajustes manuais na camada de representação não acompanham automaticamente as mudanças no modelo, e podem gerar inconsistências se não forem bem gerenciados.
Na prática, o Revit prioriza a fidelidade automática entre modelo e documento, enquanto o Archicad prioriza o controle do arquiteto sobre a representação, com a responsabilidade de manter a coerência entre as duas camadas.
pranchas do executivo do Agora HUB, revisões iniciais.
navegação 3D
Esse é um ponto que para a gente pesa muito, e onde a diferença entre os dois softwares é evidente. A navegação 3D do Archicad lembra muito a do SketchUp em usabilidade: a câmera responde de forma intuitiva, gira em torno do que o cursor está olhando, e dá a sensação de estar percorrendo o edifício em vez de operar um software. As cenas se salvam com facilidade, e os modos de visualização cobrem bem o que a prática pede: com linha ou sem linha, com sombra ou sem sombra, perspectiva ou axonometria, tudo a um clique. Quando o trabalho exige precisão, o Archicad oferece controles completos de posicionamento de câmera, distância focal e ponto de fuga, intuitivos para a profundidade que entregam.
No Revit, a navegação 3D é historicamente um dos pontos mais reclamados pelos próprios usuários. Por padrão, o ponto de rotação da câmera não acompanha o que o cursor está olhando, o que em projetos grandes obriga o usuário a selecionar um elemento antes de cada giro para que a rotação faça sentido visualmente. As ferramentas auxiliares ajudam, mas dependem de cliques precisos em elementos pequenos da tela e quebram o fluxo de trabalho. Em modelos densos, a navegação trava com frequência, e a própria Autodesk recomenda desativar certas opções de visualização para contornar o problema. Quem alterna entre os dois softwares percebe a diferença na primeira meia hora.
Print do modelo do Oscar 2525 no Archicad, em desenvolvimento.
plugins, comunidade, ecossistema
Aqui o Revit ganha. O ecossistema de extensões, scripts de automação, pacotes gratuitos e pagos, fóruns ativos, canais de YouTube e eventos da Autodesk University é, em tamanho, várias vezes maior que o equivalente da Graphisoft. Para problemas técnicos raros e específicos, a chance de existir uma solução pronta ou um tutorial é muito maior no Revit.
Ambos têm conexão com ferramentas de design computacional (Rhino e Grasshopper), mas a integração do Revit com essas ferramentas amadureceu mais rápido e é considerada mais robusta pela comunidade.
Outro ponto prático: a oferta de mobiliário e componentes de fabricantes terceiros é muito maior para Revit. Marcas de mobiliário, iluminação e equipamentos costumam disponibilizar seus catálogos em formato de família Revit antes (e às vezes exclusivamente) do que em formato Archicad. Para escritórios que trabalham com especificação de produtos reais, isso reduz o tempo gasto criando componentes do zero ou convertendo uma família do Revit em objeto do Archicad.
dois campos pra acompanhar
Esses dois temas ainda não decidem a escolha de software para a maioria dos escritórios, mas estão evoluindo rápido e vale acompanhar.
Sustentabilidade e análise de ciclo de vida: Avaliar o impacto ambiental de um edifício (carbono incorporado nos materiais, consumo energético ao longo da vida útil) é uma demanda crescente em certificações, concursos e contratos. Hoje, o Revit está à frente nesse ponto: o Forma Carbon Insights vem incluso na assinatura e permite fazer essas avaliações ainda na fase inicial de projeto. O Archicad tem caminhos possíveis por meio de plugins, mas a integração é menos direta. É um campo em movimento, e a distância entre os dois pode mudar nos próximos anos.
Inteligência artificial e automação: Ambos lançaram assistentes de IA recentemente, em estágios parecidos de maturidade: promissores, ainda imperfeitos, em desenvolvimento ativo. O Archicad 29 trouxe um assistente focado em consultas ao modelo e geração de imagens. O Revit 2027 trouxe o seu, capaz de executar tarefas dentro do modelo por comandos de texto. O ponto mais interessante é a possibilidade de conectar agentes de IA externos (como o Claude ou o ChatGPT) diretamente aos softwares por meio de um padrão aberto chamado MCP (Model Context Protocol). O Revit 2027 já tem um servidor MCP oficial. O Archicad ainda não tem o seu, mas existem projetos da comunidade que cumprem o papel. Tudo ainda é experimental, mas vale começar a experimentar agora, antes que vire pré-requisito.
IA e integração com agentes
síntese
Revit é o software certo para escritórios grandes, com produção multidisciplinar já consolidada, dentro do mesmo ecossistema. Archicad é o software certo para escritórios pequenos e médios, com foco em arquitetura autoral, onde a saída gráfica importa, especialmente em Mac. Há gradientes entre os dois, e cada escritório vai pesar diferente.
parte 2, por que escolhemos Archicad
Em 2018, o Estúdio Módulo, escritório dos sócios Erica Tomasoni, Guilherme Bravin e Marcus Damon, venceu o concurso nacional para o primeiro edifício do Ágora Tech Park, em Joinville. Foi o nosso primeiro projeto BIM de verdade, não no sentido de “modelado em 3D”, mas no sentido de processo coordenado, com biblioteca e template, com nomenclatura, com estratégia de organização do modelo. Tínhamos uma decisão a tomar antes de começar: Revit ou Archicad?
A escolha pesou em várias direções. O escritório era, e é, pequeno e em crescimento, e o custo da licença Archicad por estação saía mais em conta do que a solução oferecida pela Autodesk. Parte da equipe já tinha tido contato com Archicad em outros lugares, o que reduzia o tempo de adaptação. E havia o ponto da estética: a documentação que saía do Archicad estava mais próxima da linguagem que o escritório já praticava em AutoCAD.
O Ágora Tech Park, com o masterplan e o edifício HUB, foi o primeiro projeto que nos requisitaram ser desnvoldio em BIM. Depois vieram mais dois edifícios para o mesmo cliente, o MOB e o UNI, também em Archicad, agora como continuidade natural. Ao longo desses sete anos, a equipe foi aperfeiçoando templates, bibliotecas e estratégias de organização, e a curva de produtividade ficou mais íngreme. Hoje estamos tocando dois projetos importantes inteiramente em Archicad: o Oscar 2525, com a IdeaZarvos, e o Centro Cultural Rio África, vencedor do concurso internacional de 2024.
Os sócios do Estúdio Módulo sempre foram entusiastas de Apple, mas o parque de máquinas do escritório só foi totalmente migrado para Mac no fim do ano passado, com a chegada dos novos Mac Mini. Uma review desses computadores vai sair aqui na Curadoria em breve. A escolha do Archicad em 2018 não foi por causa do Mac, mas a migração reforçou a decisão: pelos motivos discutidos na Parte 1, o Archicad é hoje o único BIM que roda em macOS com a maturidade que a produção do escritório exige.
fonte: manuel de sá
os outros motivos
Curva de aprendizado: Pessoas novas no escritório, vindas de SketchUp, AutoCAD ou de cursos universitários onde o BIM foi superficial, conseguem produzir em Archicad em poucas semanas. Em uma análise da Capterra de 2025, o Archicad pontuou 4,2 de 5 em facilidade de uso, contra 4,0 do Revit. A diferença numérica é pequena, mas no dia a dia da equipe ela aparece.
Saída gráfica: Para o CURA, esse ponto é fundamental. Publicamos, ensinamos, mostramos desenho daquilo que produzimos na prática. A documentação que sai do Archicad, pranchas, detalhes, plantas, exige menos pós-produção e tem uma estética que nos representa melhor. Para um escritório onde o desenho é parte da identidade, isso pesa.
Continuidade: Sete anos de arquivos, templates, bibliotecas e fluxos consolidados. Trocar de software hoje seria uma decisão técnica e cultural enorme, que precisaria de razões muito boas pra valer o custo. Não temos.
onde o archicad pode melhorar
Mas nem tudo são flores, a modelagem de elementos complexos, fachadas atípicas, guarda-corpos com perfis específicos, coberturas com geometria não-ortogonal, soluções novas de esquadrias, escadas... exige combinar várias ferramentas e operações, frequentemente usando recursos para finalidades para as quais eles não foram desenhados. Para criar uma bancada com perfil específico, é comum usar a ferramenta de viga segmentada com perfis complexos. Na cobertura do Centro Cultural Rio África, foi necessário operar a ferramenta de parede cortina por uma malha para chegar ao efeito que o projeto pedia. As soluções funcionam e são suficientemente precisas, mas o caminho até elas exige paciência e às vezes três ou quatro arquitetos atrás da mesma tela.
A coordenação com consultores de estrutura e instalações é outra área onde o Revit tem ecossistema mais amigável. A nossa rotina passa por IFC e por comunicação direta, que funciona, mas é menos automática.
Não são razões para trocar. São razões para não fingir que a escolha é perfeita.
um recorte do mercado brasileiro
Em um levantamento informal entre escritórios brasileiros de arquitetura , escritórios com projeto de arquitetura como produção principal, a presença do Archicad é maior do que o discurso geral sugere. Entre os escritórios da nossa amostra que adotaram BIM, a maioria escolheu Archicad: Bernardes Arquitetura, Jacobsen Arquitetura, Konigsberger Vannucchi, Gui Mattos, Biselli Katchborian, FGMF, Natureza Urbana, MMBB, e o próprio Estúdio Módulo. Pelo lado do Revit aparecem nomes igualmente fortes: Studio Arthur Casas, Studio MK27, Hype Studio, mf+arquitetos, Seferin Arquitetura, Triptyque, Architects Office e Bacco. Outros escritórios usam SketchUp como ferramenta principal de criação (Isay Weinfeld, Superlimão), com BIM entrando em fases posteriores.
o contexto do ensino no Brasil
Em julho de 2025, foi homologada a Resolução CNE/CES nº 1, que institui as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Arquitetura e Urbanismo, coordenada pela ABEA em conjunto com IAB, AsBEA, ABAP, FNA, FeNEA e CAU/BR. A nova resolução estabelece o domínio de ferramentas de modelagem da informação de projeto como competência obrigatória dos egressos, e lista laboratórios de Modelagem e Fabricação Digital e de modelagem paramétrica e simulações de desempenho entre a infraestrutura obrigatória dos cursos. Os cursos têm dois anos para implementar. Some-se a isso o Decreto nº 10.306/2020, atualizado pela Estratégia BIM BR (Decreto nº 11.888/2024) e pela Lei 14.133/2021, que estabelece o uso preferencial do BIM em obras públicas federais. Em nenhum dos textos legais o BIM está amarrado a software específico.
A pergunta “qual software ensinar” é, portanto, secundária em relação a “como ensinar BIM”.
a próxima parte
Esse texto é introdutório. A discussão técnica, organização de modelos, hotlinks, gestão de bibliotecas, classificação e soluções concretas para problemas reais, vai sair em parceria com a Erica Tomasoni, que coordena a produção BIM dos nossos projetos atuais e tem na mão a experiência operacional que vale dividir.
referências
Referências consultadas: NBS Digital Construction Report; European Architectural Barometer (USP Marketing Consultancy, 2021); reviews comparativas em illustrarch.com (mar/2026), myarchitectai.com, archilabs.ai e Architosh (abr/2026); Resolução CNE/CES nº 1, de 11 de julho de 2025 (Ministério da Educação); Decretos 10.306/2020 e 11.888/2024 e Lei 14.133/2021 (Planalto); documentação Graphisoft Community e graphisoft.com; documentação Autodesk Revit 2027 (autodesk.com/blogs/aec); Anthropic, página oficial do Cowork e do Model Context Protocol; archicad-mcp (github.com/lgradisar/archicad-mcp) e tapir-archicad-MCP (github.com/SzamosiMate/tapir-archicad-MCP); listas de escritórios usuários: Migra BIM (migrabim.com) e Construtora Virtual (construtoravirtual.com.br).